Educação

‘A gente não tem nem lápis’

Professores destacam abismo entre as realidades brasileira e de países que são referência

Ciclo de debates. Lideranças de vários países debateram os modelos de formação de professores

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Base curricular esbarra na falta de política para os professores Mais PUBLICADO EM 21/05/18 – 03h00 Litza Mattosenviada especial*

Tendências que levaram países como Finlândia e Cingapura a se tornarem referências mundiais em educação – e que em parte estão sendo contempladas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como por exemplo a adoção de conteúdos que desenvolvam as habilidades socioemocionais nos alunos –, entretanto, ainda são vistas como desafios pelos profissionais brasileiros que ainda têm que lidar com problemas estruturais na educação do país, como a falta de papel e até de bibliotecas nas escolas.

A professora da rede municipal de Diadema, em São Paulo, Marilena Mattenhauer, reconhece que a BNCC é um passo importante, mas deve vir acompanhada de outros investimentos. “A gente fica meio em crise porque não vê esse investimentos que outros países fazem, no Brasil. Na nossa realidade a gente não tem sulfite, não tem lápis…”, afirma.

Essas tendências apontam, de acordo com a professora de educação da Universidade de Stanford, Linda Darling-Hammond, que foi consultora do governo Obama, para uma sistema que se adapte as diferentes realidades. Segundo ela, muitos países estão repensando padrões e currículos porque as sociedades estão mudando muito rapidamente, e as economias são cada vez mais baseadas em conhecimento.

Linda diz que, de 1999 a 2003, houve mais conhecimento criado do que na história inteira mundial, e isso traz consequência para o currículo escolar. “Antes, o professor pegava todo o conhecimento adquirido na faculdade, cortava, fatiava em 12 anos e entregava aos alunos. Eles absorviam, memorizavam e depois ‘vomitavam’ na prova e pronto. Agora isso não faz mais sentido. No futuro, os jovens vão trabalhar com um conhecimento que ainda nem existe, com tecnologias que ainda não foram inventadas, para resolver problemas que nós ainda não conseguimos resolver”, explica.

Para Marilena, o problema passa pela vontade política. “Nós sabemos que eles estão no caminho certo, mas é um pouco deprimente porque acreditamos na educação, lutamos por ela, temos potencial. O problema é que temos políticos corruptos que não olham a educação como ferramenta para que a população tenha um futuro mais decente”, diz a professora.

Diante da necessidade de elaboração de um documento que estabeleça um conjunto de habilidades e aprendizados das crianças e jovens devem ter acesso em cada etapa da educação, inclusive competências como pensamento crítico e cooperação, a pesquisadora da Fundação Carlos Chagas (FCC), Elba Siqueira, questiona se a adoção da BNCC vai significar o abandono de projetos exitosos implementados no passado.

“Diante da nova Base, não podemos jogar fora toda a experiência acumulada. Há muita coisa que temos que recuperar, pois os Estados são grandes formadores, mas, termina uma gestão, se joga fora, e ninguém mais acha”, diz.

De acordo com o professor da Universidade de Berkeley, Oliver John, o professor deve ser visto como figura central também nos debates sobre as habilidades socioemocionais. “Essas competências vão entrar conforme os professores tenham mais habilidades. Mas ele não faz isso sozinho. Tem também a gestão escolar, que deve dar suporte, apoiar e ajudar. Nós também precisamos ajudar os professores com seu histórico familiar, que às vezes não lhes forneceu muito apoio. Nossa responsabilidade é dar todo esse suporte a eles”, diz.

* A jornalista viajou a convite do Itaú Social e do Instituto Ayrton Senna

 

Depoimentos

“O salário de um professor em Cingapura é o mesmo do que o de um médico ou engenheiro, porque acreditamos que é uma profissão honrável. Depois de sete anos de carreira o professor pode tirar um ano sabático e viajar para qualquer lugar do mundo para aprender novos ofícios. Todo ano os professores precisam passar por cem horas de formação profissional obrigatória e financiada pelo governo. Em Cingapura, nós ensinamos os alunos a questionar, pensar, explorar, analisar os problemas de diferentes perspectivas, não são alienados na antiga forma de ensinar. Todo ano o governo dá a nossa instituição US$ 20 milhões para trabalhar em pesquisas na área de educação. Nossas políticas públicas sempre são baseadas em evidências científicas. Nós recebemos todo ano 300 diretores de escolas e reitores de faculdades chineses querendo aprender sobre o nosso sistema. Se a China, que é um país tão grande, mas ainda está disposto a aprender, então no Brasil, com certeza, dá para fazer. Só precisa ter um desejo profundo.”

Chor Boon Goh

Gerente geral da NIE Internacional, Cingapura

“O país tem a melhor posição do mundo no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), principalmente porque o principal foco do currículo é fazermos os alunos crescerem como cidadãos. Nós acreditamos que os alunos têm papel ativo dentro do seu processo de aprendizagem. Esperamos não ter salas cheias de crianças só ouvindo e observando. Os alunos têm que aprender sobre os problemas e os fenômenos da vida real. Houve rumores de que havíamos retirado todas as disciplinas (geografia, matemática, química), e isso não é verdade. No entanto, queremos que elas resolvam os problemas da vida, porque esses problemas motivam os jovens a aprenderem. Tradicionalmente, o professor tinha as respostas para todas as perguntas; agora, os alunos perguntam cada vez mais. Queremos moldar o futuro juntos. Não dá para copiar nenhum sistema. Dá para aprender com os outros. Espero que consigamos construir uma ponte para, assim, aprendermos juntos. Ninguém consegue fazer isso por vocês. Vocês têm que assumir esse desafio e levar adiante.”

Anneli Rauatiainen

Agência Nacional de Educação da Finlândia

 

Minientrevista

Jana Barros

Coord. pedagógica da Bahia

Qual é o maior desafio?

O maior desafio é implementar um projeto de rede em que todas as pessoas envolvidas tenham a clareza do seu papel. O que o secretário quer quando implementa a BNCC? O que vai oferecer como condições de trabalho? Senão, daqui a pouco, quando a gente for avaliar, vamos descobrir alguns furos e aí a gente pode creditar o fracasso em lugares onde ele não está. Para que a BNCC tenha sucesso, primeiro a gente precisa entender onde cada rede quer chegar, porque a BNCC diz o quê e diz por que, mas não diz como. E existem desafios que são meus lá na Bahia que não serão os mesmos em Minas Gerais.

Porque os professores se sentem perdidos?

Porque não tem um projeto de rede. Parece que a BNCC é da função do professor, parece que só ele precisa implementar e aí o professor se sente solitário. E, se eu não trato a BNCC como projeto de rede, o professor vai ficar sozinho, e ele tem razão quando se sente abandonado.

Em Minas Gerais, tivemos várias greves envolvendo inclusive redes privadas.

Sim. Porque eles se sentem só. O professor tem realmente que reivindicar parcerias.

Acha que ainda é um período de adaptação?

Acho que a gente não está se adaptando porque a gente ainda não conhece. Eu acho que a gente está num processo de reconhecimento ainda.

Fonte: O tempo
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